quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Névoas (de Alma Welt)

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.


Nieblas (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

La niebla que planea en la estancia
La revela por su falso letargo,
Dos siglos de espera y de constancia
La hicieran firme, siempre, al largo.

¿Quien llega al caserón y sus soleras,
Qué espuelas ya retiñen en la baranda,
Qué dulces ojos de casadas y solteras,
Bajan como uno a veces manda?

La niebla revive áureos tiempos,
Las risas y esperanzas se renuevan,
Todavía no habían contratiempos.

Garibaldi en la sala entra con Anita*
Quizá a la familia ambos conmuevan,
La pareja no será acá maldita.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Jogral (de Alma Welt)

O Jogral (de Alma Welt)

Para prosseguir minha jornada
Abro mão de certos artifícios,
Não os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,

Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira.

Eis a maior vaidade! -vós direis-
Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis,

Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.

(sem data)

Nota
No tesouro da inesgotável Arca da Alma, descobri esta manhã este soneto inédito, que estou persuadida de tratar-se de uma obra-prima, e logo o verti para o castelhano:


El Juglar (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)



Para proseguir en mi jornada
Abro mano de unos artificios,
Los de la vanidad declarada,
Los cuales demandan sacrificios.

Pero sigo plantando en el ahora,
Frutos del porvenir, el manzano
Dorado, sin embargo, de una aurora
Vislumbrada por mi, bajo mi mano,

Esto es la vanidad! –ustedes dirán-
Todo es vano, la muerte va matando
Hasta el poder del rey y del sultán.

Pero yo, aunque niña, he constatado
Que el juglar del rey sigue cantando
Y su poder jamás ha terminado.

sábado, 19 de setembro de 2009

Cabra-Cega (de Alma Welt)

A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira

Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Do tatear e o reencontro, comovida.

Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,

Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.

(sem data)



Gallinita (de Alma Welt)
(versión al castellano de lucia welt)

El poema que en el papel yo lanzo
Ha de tener la verdadera cara
De lo que todavía no me canso,
Sin embargo tontería nada rara,

Que es estar ciego en esta vida
Como aquel juego de infantes
Con la eterna tensión y arremetida
Y la emoción que dura instantes

Así, también ciego es el soneto
Que me hace correr sombría senda
De dolores, ternuras, sin esquema

Por cuanto la llave del terceto
Es siempre inaudita cual leyenda,
Pero tiene mi rostro como emblema.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A Moratória (de Alma Welt)

A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)



De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...

Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória

Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos

Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...

17/08/2006


La moratoria
o El sueño de los amores (de Alma Welt)
Versión al castellano por Lucia Welt)


De noche los aromas del jardín
Traen sueños de antiguos moradores
De esta morada vieja, y el jazmín
Como una cadena de dolores.

Las ansias no se mueren por aqui
Dormidas todavía en la memoria
De las cosas que fueran siempre así
A pedir por la paz… o moratoria

Por las causas perdidas y fracasos
Que son como aciertos, al final,
Pues que son caminos y son pasos.

La muerte siempre deja inacabados
Los sonetos y la fecha siempre igual:
Gozo y dolor como flores en los prados.

Vida e Arte (de Alma Welt)

Creio que uma vida é bem vivida
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.

Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...

Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.

Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!


12/01/2007


Vida y Arte (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)


Yo creo que una vida es bien vivida
Cuando deja rastros indelebles,
No aquellos tímidos e débiles
Que mal hacen creer que fueran vida.

Una carta en ton apasionado
Es ya esfuerzo y marca suficiente,
O billete en el abuhardillado
Que todavía emocione algún pariente.

Una tela, un libro, irse más hondo
Un soneto, si es posible, mil sonetos
Y la sorpresa al final de unos tercetos.

Jamás como “la pena de existir”,
Vida, vida y arte, un cante jondo
Y el “ahora” de un bello porvenir!

14/09/2009



Nota

Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)